sexta-feira, 18 de março de 2011

O que o cursinho faz com um aluno

Não é de hoje que tenho a maior birra com essa coisa chamada cursinho. Entre outras coisas tantas, o que mais me incomoda é a mentalidade que se forma lá dentro. Um das principais características é que o mundo se divide em HUMANAS, EXATAS e BIOLÓGICAS. Outra coisa bastante irritante é a hierarquização das carreiras almejadas - se você apenas almeja prestar medicina, isso te põe numa categoria superior a outra pessoas. Parece que hoje em dia é mais ou menos assim: medicina --> engenharias --> direito/admnistração (cada uma das áreas tem subdivisões internas, tipo: medicina --> biomedicina --> farmácia, etc). Detalhe: a pessoa nem mesmo passou no vestibular e já se sente superior apenas por possuir a pretenção de prestar um vestibular mais concorrido. Sim, concorrência por vaga determina o prestígio. Não raro, essas mesmas pessoas passam 4, 5 ou mais anos fazendo AS MESMAS aulas até conseguirem entrar numa faculdade. Às vezes nem entram no curso pretendido ou numa faculdade pública, que é o que quase todos querem. Estavam super orgulhosos do quê mesmo?


Bom, aí o que acontece é o seguinte. A pessoa passa todo o início da vida adulta, que é uma fase bastante produtiva intelectualmente, em meio à competição e compartimentação do mundo em três áreas gerais, bem embalados em um monte de piadinhas que os professores contam pra tornar a repetição daquele conteúdo menos maçante. Por mais que se tente disfarçar, temos que convir que alunos passam muitos anos vendo O MESMO CONTEÚDO. Resultado: ao invés de estarem enriquecendo seu repertório de assuntos e amadurecendo na faculdade, graduam-se na "mentalidade cursinho" em que ser engenheiro é ser melhor que um matemático, só pra citar um exemplo. O mais ridículo é que com 25 anos ou mais, quando finalmente ingressaram no curso (o que pretendiam ou algum de consolo) anunciam orgulhosamente nos perfis das redes sociais o "churras do calouro - ingressos comigo". Convenhamos, tudo tem o seu tempo. 

Teria aqui muitas mil coisas pra dizer, mas prefiro relatar uma conversa extremamente irritante que ouvi no ônibus. Fui pra USP e encontrei no ônibus dois alunos de cursinho que estavam indo conhecer a universidade. O meu estômago, que é fraco, já se revirou. Aí na volta, encontrei os mesmos dois alunos no ônibus, já bastante entrosados e conversando sobre a vida, mostrando tudo de profundo que aprenderam em anos a fio de cursinho (ambos já tinham 20 anos, o que dá aproximadamente uns 3 anos).

Aspirante a Engenheiro:
_Eu sou muito EXATAS... Sou tímido, nunca fiz muitos amigos. Não sou uma pessoa expansiva.

Aspirante a Embaixador do Brasil no Japão (!!!!!!!!):
_Eu sou muito misturado, HUMANAS e EXATAS. Sou tímido, mas eu vou atrás do que eu quero. Eu sei correr atrás das coisas...

O primeiro comentário que tenho a fazer é que Freud está ultrapassado. Agora não existe mais psicótico, neurótico e perveso. Os tipos de personalidade se dividem em "humanas", "exatas" e "biológicas", esse último correspondendo a pessoas que tem o desejo intríseco de se vestir de branco, mas, para todos os efeitos, querem biológicas porque se "preocupam com o outro" e tem uma personalidade altruísta (a que eu carinhosamente chamo de "complexo de ursinhos carinhosos").

Com o prosseguir da conversa, descobri exatamente o que esses interessantes rapazes querem da vida. O aspirante a engenheiro, na verdade quer dar aula - em cursinho. Os passos óbvios são: Graduação em Engenharia, plantonista (I've been there. Belive me: it's NOT funny), professor de cursinho. Não quer dar aula pra escola, porque são os alunos são muito novos, e não quer dar aula em universidade porque os alunos são muito velhos. Pergunta: será mesmo que são muito mais velhos do que os marmanjões do cursinho? E adivinhem só o motivo de ele ter escolhido engenharia:

"É que eu gosto de estudar as coisas, conhecer profundamente"

Indagado sobre o porquê não tentar um curso como matemática ou física, a resposta foi surpreendente:

"É que aí seria muito abstrato, gosto mais da prática. E também, para conseguir emprego depois, engenharia tem mais 'nome'. "

Muito interessante essa mentalidade em que para ser professor de física ou matemática, um curso de engenharia é melhor do que uma licenciatura ou bacharelado na área específica. De onde será que ela vem??? EU SEI: dos donos dos cursinhos, que contratam advogados para dar aula de história, jornalistas para dar aula de redação, qualquer um para dar aula de  inglês e engenheiros para dar aula de exatas. Sim, o cursinho é o mundo onde os frustrados com as suas carreiras acabam se encontrando com o maravilhoso mundo do ensino. Percebem o ciclo vicioso?

De tudo, o que vai me marcar para o resto da vida é a fala do aspirante a embaixador do Brasil no Japão. Ele pretende cursar Relações Internacionais. Por quê? Porque possui uma fixação com o Japão. Segundo ele mesmo, ele "manja" de tudo que se diga respeito a esse país. A cabeça dele funciona mais ou menos assim: ele tem uma fixação adolescente pelo Japão e ele vai orientar toda a carreira dele por isso. Poderia estudar história, cultura, literatura japonesas, mas resolveu, na humildade, querer ser apenas embaixador. De onde será que ele tirou tanta humildade? São Francisco? Bom, no cursinho se ensina que se deve sonhar grande/alto, ou seja, ambicionar cursos concorridos para que se possa passar mais anos lá dentro pagando a mensalidade até conquistar uma vaga.

Esse mesmo jovem expressou um contentamento a respeito das recentes catástrofes que ocorrem no país que tanto ama. A justificativa é que com certeza isso será tema de alguma questão, quiçá, da redação. Para utilizar as palavras exatas:

"Se cair alguma questão sobre isso, vai me dar um tesão, porque aí eu vou poder mostrar tudo o que eu sei sobre o Japão. Nossa, vou delirar!"

O mais intrigante é que esse gênio definiu o seu objetivo de vida como uma vingança pessoal boa, que consiste em mostrar seu orgulho nacionalista e provar que "brasileiro é foda e também pode". O ápice da sua vida será quando ele puder "desfilar de limousine com a bandeira do Brasil". Os passos da carreira desse talentoso rapaz são: cursar Relações Internacionais, fazer intercâmbio, ser professor (????), ser diplomata e, depois, embaixador. Isso, segundo ele, o levará, no seu leito de morte, a poder dizer que "valeu a pena". 

Bom, nessa hora, ainda bem que o ônibus chegou no ponto em que eu descia, porque, sinceramente, eu já estava quase vomitando...

1 comentários:

  1. "sou tímido, nunca fiz amigos". Claro, nunca teve tempo!

    ResponderExcluir

Solta a língua!